Foto Foto · 'Fotos de Novela - 2', de Vitor Nunes
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1 Outubro 2013
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“Apresentação:
O meu nome é Dzevezda Stagarrolevski e trabalho como repórter free-lancer.
Sou originário da Syldavia , embora tenha adquirido nacionalidade butanesa .
Contacto com jornais e revistas de todo o mundo mas mantenho ligação privilegiada com o Klow Matin e Thimphu Vingtème.
As crónicas que agora vos apresento são muito antigas pelo que muitos dos intervenientes masculinos já cavalgam ao lado de Manitu na Grande Planície e as femininas colhem o mel e o leite no Vale Sagrado de Wiracocha

02 - Lobo do Mar - II

“Tinha acabado de visitar o Forte de Peniche, transformado em museu, com a finalidade de preparar uma reportagem sobre a repressão fascista em Portugal e ao descer em direcção à Ribeira Velha reparei num homem especado frente à coroa de flores que assinalava a homenagem do Dia dos Pescadores que por norma é ali colocada anualmente no monumento. Tinha aspecto de homem do mar e algum tempo depois, como se já tivesse memorizado os dizeres de homenagem ali escritos, foi sentar-se na base do monumento, limpou as lágrimas com um lenço e ficou de olhar fixo no mesmo, muito tempo, como se aquelas lágrimas tivessem o dom de fazer desfilar perante os seus olhos os anos de vida que a homenagem aos pescadores lhe traziam à memória.
Noutras circunstâncias teria procurado estabelecer comunicação e saber daquelas recordações para serem a base duma crónica ou material de novela. No caso vertente preferi optar por uma técnica de distanciação “concentração no observador” onde o sujeito está colocado no espaço dos acontecimentos observando-os.
Efabulemos, então, sobre aquelas lágrimas reais: “Era filho daquela terra de homens do mar, ele mesmo pescador e marinheiro numa família que não sabia de outra vida, aquela homenagem trazia-lhe à memória amigos e coisas passadas que lhe puxavam as lágrimas, lágrimas pelo que viu, soube e viveu. Coisas enraizadas à terra, ao forte feito prisão, à praia do pranto das mulheres e da ânsia dos homens, ao mar implacável na sua fúria.
Cada lágrima era uma recordação, saudosas umas dolorosas outras, a alegria do sim da sua companheira de vida quando namoravam, a tristeza pelos amigos tragados pelas ondas frente à Senhora dos Remédios naquela fatídica noite de 30 de Setembro de 1977 quando a “Benito” regressava da faina e de um momento para o outro tudo foi tragédia e lá ficaram as vidas de sete homens, entre eles o António sapateiro que quis ser pescador pois que o remendar sapatos não dava para a bucha e que ali se afogou junto do filho Leandro que se largou da rocha para tentar salvar o pai.
Nem todas a desgraças do mar acabaram em tragédia, como se lembra dos dois ingleses salvos, em Outubro de 1962 quando o iate se despedaçou contra o cerro da praia de Peniche de Cima, pelo salva-vidas a remos sob o comando de Zé Gabriel, pescador que havia chegado à pouco do mar devido ao mau tempo, que decidiu tomar a responsabilidade, já que o mestre da embarcação não aparecia na praia, e com outro companheiros dispostos a arriscarem-se foram buscar os ingleses já na água com bóias e um delas ferido. O Zé ainda foi chamado à Capitania por ter metido o barco à água sem autorização, mas acabou por imperar o bom senso e aqueles heróicos homens foram louvados pelo seu acto de coragem.
A quem lhe falava dos “Amigos de Peniche” depois de explicar que nada tinha a ver com a gente da terra mas sim com a tropa fandanga inglesa que desembarcou na Consolação para “ajudar” D. António e retirou um mês depois quando se apercebeu que tinha forte resistência dos espanhóis em Lisboa, não sem antes causar todo o tipo de desmandos pelo caminho, aproveitava para deixar claro o carácter dos seus conterrâneos contando a história da sua cunhada que tinha na sala da sua minúscula casa um divã de abrir para dar guarida a familiares de presos no Forte pelo regime fascista, quando tinham de pernoitar antes ou depois da visita, por se deslocarem em transportes colectivos. Ainda se lembra duma noite em que andou de porta em porta para conseguir um recipiente que servisse de biberão para adaptar a mamadeira do que se havia partido na casa da cunhada.
Também há uma lágrima sorridente para aquela manhã de Janeiro de 1960, quando começou a constar que durante a noite “se tinham pirado do forte uma caterva de presos” e a satisfação quando soube, mais tarde, que o guarda Zé Alves tinha estado metido na tramóia. O gozo que deu quando disseram que tinham descido o muro com lençóis atados como se via nos filmes dos “camones”.”
Na literatura há um herói que vive todas as aventuras, na vida real são muitos os heróis que superam as aventuras que essa vida lhes põe pela frente.

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