Foto Foto · 'Fotos de Novela - 4', de Vitor Nunes
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15 Outubro 2013
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“Apresentação:
O meu nome é Dzevezda Stagarrolevski e trabalho como repórter free-lancer.
Sou originário da Syldavia , embora tenha adquirido nacionalidade butanesa .
Contacto com jornais e revistas de todo o mundo mas mantenho ligação privilegiada com o Klow Matin e Thimphu Vingtème.
As crónicas que agora vos apresento são muito antigas pelo que muitos dos intervenientes masculinos já cavalgam ao lado de Manitu na Grande Planície e as femininas colhem o mel e o leite no Vale Sagrado de Wiracocha

04 – Sonhos de secas e fomes

”Viu o banco do jardim, ao sol, à sua frente e o cansaço era tanto que se sentou, esticou as pernas e adormeceu. A noite tinha sido de trabalho pesado e duro e nas anteriores também assim havia sido, a vida não estava fácil mas estava determinado a juntar o dinheiro para a viagem. Já estava roído pelas saudades da sua terra e ainda agora estava na passagem intermédia para aquilo que pensava ser a terra prometida.
Não tardou a juntar ao sono o sonho, não era bem um pesadelo mas era recorrente na incomodidade que lhe ficava no gosto da boca ao acordar, Via-se sentado ao lado do avô, pés pendurados na muralha e abaixo o marulhar suave do vai e vem das ondas e sempre uma história e outra das dificuldades daquela terra dos flagelados do vento leste, como dizia o Ovídio Martins. Já as conhecia todas mas o avô tinha de exorcizar os fantasmas que redemoinhavam na sua cabeça, era a seca, era a fome num ciclo interminável de memórias que tinham de tomar forma de palavras – não te esqueças moço, a maldição da chuva que foge tem de ser quebrada por vós que sois novos e podeis correr mundo agora que somos um país, e trazer ideias para afastar a seca e vencer a fome. Depois da primeira grande guerra foram dez anos de seca e a gente a morrer faminta pelos cantos, foram então mais de cinco mil mortos. Passado pouco tempo, nunca te esqueças dessa data de 7 de Junho de 1934, ainda era rapazote, as gentes do Mindelo contradizendo a fama de festeiros vieram para a rua gritar que tinham fome e foram aos armazéns e lojas onde os alimentos estavam sonegados ao povo apropriar-se do que lhes pertencia por direito à dignidade, durou pouco mas o poder colonial tremeu a sério pela primeira vez, ainda me lembro de mornas e coladeras que recordavam esse feito. Mas a seca voltou a atormentar a nossa terra e as nossas gentes, quando vem a seca nem Deus fica para não morrer de sede, e a grande desgraça veio outra vez durante e após a segunda grande guerra, Era uma dor de alma, famílias abandonadas à sua sorte, enxadas imprestáveis e terra gretada, tudo morto à sua volta e vencidos pelo desânimo sentavam-se de olhar perdido esperando a sua própria morte. Nas povoações chegou a trocar-se uma bolacha por duas telhas, a avareza dos que tinham era tão grande como a fome dos desgraçados. – Sempre que o avô falava das bolachas lembrava-se da história que o pai contava da revolução francesas com a rainha Marie Antoinette a interrogar-se, quando lhe disseram estar o povo revoltado por não ter pão: ? então porque não comem brioches? – Morreram mais de vinte e cinco mil pessoas e emigraram milhares e milhares para um trabalho quase escravo nas roças de São Tomé. A pouca ajuda que chegou da Guiné, farinha de milho, alguns sacos de feijão e arroz e mancarra que os brancos chamavam de amendoim, em virtude da fraqueza em que estava a população acrescia os problemas pois a mancarra rica em gorduras causava disenterias terríveis por não as conseguirem digerir e cólicas atrozes por consumirem a farinha crua, os sacos eram abertos logo no porto e comidos a mãos-cheias por quem a eles tinha acesso. A esperança desta terra está na vossa vontade de mudar e fazer um país destas ilhas que sempre foram barcos abandonados, esquecidos e flagelados pelo vento. - O sono vai longo e sonho esgota-se, as últimas imagens são do desvanecimento do avô e do aparecimento do sorriso do primo a acenar-lhe de lá longe na Holanda a fazer limpezas no Hotel onde trabalha. E um sorriso de esperança baila-lhe nos lábios, está quase a acordar…”

Afasto-me pois não quero ser desmancha-prazeres, pensando na triste sina dos colonizados na terra em que nasceram cuja libertação passa por serem colonizados na terra dos colonizadores, ainda que não sejam os mesmos de antes. E murmuro baixinho: -Quando te despertares corre rapaz, corre e não fies na Virgem…

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