Foto Foto · 'Postais do Bósforo X–Lenda do Vizir', de Vitor Nunes
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21 Maio 2003
Data :
Setembro 2002
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Turquia
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4970
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A Lenda do Vizir que pensava que a falta de liberdade garantia a segurança

Era uma vez um vizir que governava com mão de ferro as terras que ia conquistando para o seu senhor. Desgraçados dos povos que nelas habitavam, eram espoliados de tudo quanto possuíam, obrigados a trabalhar como escravos e só mantinham o direito à vida enquanto o seu trabalho desse mais proveito que o custo de os alimentar para os manter vivos.
Tinha este vizir uma filha muito bela, muito meiga, de grande coração, que tudo fazia para minorar as consequências das atrocidades feitas pelo seu pai. O vizir já tudo tinha tentado para fazer compreender à filha que a compaixão, amor pelos outros, caridade ou reconhecimento de direitos, eram princípios incompatíveis com a missão que tinham no mundo, espalhar a fama da sua civilização, afirmar o direito do mais forte ditar as suas leis, obrigar a reconhecer que os usos e costumes desses povos que iam conquistando eram incompatíveis com os desígnios de subordinação à vontade do império, à aceitação dos poderosos, à conversão à sua fé. Tudo em vão, sempre que podia a filha do vizir condoía-se dos desprotegidos, amparava-os nas suas desditas, simpatizava mesmo, pasme-se, com as suas queixas.
Um dia estava a filha do vizir a dar pão e a consolar umas quantas mães de filhos aleijados que o vizir havia mandado executar por serem imprestáveis para o trabalho de acarretar pedras para a construção de um novo palácio, quando o vizir a surpreendeu e como castigo mandou executar, também, as mães e filhos sãos que tivessem. Desesperançada por tanta crueldade a filha do vizir ali mesmo lançou uma maldição sobre si mesma “Que uma víbora me morda e eu morra dessa mordedura, pois sou indigna de ver o sol sendo filha de pai tão cruel”.
Estranha natureza humana que pode albergar num mesmo coração sentimentos tão díspares como a insensibilidade pelo sofrimento alheio e o medo de perder um ente do seu sangue. Assim, receoso que a maldição se cumprisse fez retornar a filha à sua terra, construiu uma fortaleza numa ilhota no mar frente ao seu palácio, depois de previamente ter queimado toda a terra para se certificar que não ficava bicho vivo nessa ilhota e para lá desterrou a filha, determinado e convencido que nada de mal lhe poderia acontecer, pois se ali não tinha liberdade estaria decerto em segurança.
Apenas um velho soldado de toda a confiança do vizir estava autorizado a levar diariamente as provisões para a filha e tudo lhe mandava do melhor e os mais raros e saborosos manjares.
O vizir andava satisfeito com a solução encontrada, não só sabia estar a filha bem e segura como se tinha livrado das pieguices e fraquezas que tão fora de si o punham, assim pensando viu como estavam maduras e doces as uvas daquela terra recentemente conquistada e mandou preparar um cesto com ideia de o enviar à filha. O pequeno que colheu as uvas, cujo pai tinha os olhos vazados por ordem do vizir por ter ousado levantar a vista quando os guerreiros derrotados estavam de bruços e cara na chão enquanto os vencedores arrastavam as mulheres da cidade, o tal garoto, na esperança que as uvas fossem para o vizir comer, escondeu uma pequena víbora dentro do cesto. O vizir provou uma e eram tão deliciosas que mandou de imediato um mensageiro levá-las ao seu palácio para que fossem entregues à filha. O soldado barqueiro recebendo a encomenda do seu senhor logo as entregou confiante e assim se cumpriu a profecia.
Epílogo: Embora hoje já ninguém se lembre do nome do vizir que pensava que a falta de liberdade garantia a segurança o seu contributo para a história da humanidade foi muito importante pois desde então todos sabemos que por muitas fortalezas ou torres de marfim que se construam, por muitas atrocidades e torturas que se levem a cabo, haverá sempre um coração meigo duma filha de vizir e uma mão de criança com o pai cego por um vilão para nos lembrarem que a única segurança dos homens é serem livres na sua terra.

Por aqui ficam os postais desta série, sábado estarei com alguns de vós em Coimbra e espero voltar em breve com outros trabalhos.
Obrigado pelo vosso apoio e paciência.

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